Gestão é uma merda!

freedomEste ano comemora-se no Brasil o Jubileu de Ouro da  Administração. São 50 anos desde a promulgação da Lei que oficializou a profissão no país. Já posso até ver os planejamentos e preparativos para homenagens, reconhecimento a alguns ilustres profissionais e acadêmicos e toda a pompa que esse tipo de data traz consigo. Entendo os motivos e até compartilho da necessidade de se celebrar os avanços conquistados pelos meus colegas administradores nos setores público e privados. Para se ter uma ideia, de acordo com o censo da educação superior de 2012, este é o curso superior mais procurado do país com mais de 800 mil matrículas naquele ano. O que me preocupa no entanto, é o que vamos fazer nos próximos 50 anos.

Desde a criação da administração científica de Taylor no início do século passado, o mundo foi tomado por faculdades, mestrados, MBAs, doutorados, consultorias, gerentes e gestores que compõem um verdadeiro exército de pensadores e praticantes da gestão. E o que era pra resolver e melhorar a vida das pessoas acabou criando mais problemas, que nem existiam. Minha preocupação vem aumentando desde que o instituto americano Gallup colocou em números um retrato bastante doloroso desse mundo criado no Século XX pelos administradores, de formação ou não. Seu relatório sobre engajamento no trabalho revelou que apenas 13% da população economicamente ativa mundial está engajada em seu trabalho. Isso significa que 87% está triste, desmotivada. OITENTA E SETE PORCENTO! É como se em uma empresa de 10 pessoas, 9 estivessem trabalhando por necessidade e pelo dinheiro – e não por acreditar no que a empresa faz. Pior, nessa equipe de 9 desmotivados ainda tem 2 que jogam contra e contaminam o ambiente contra o líder. Esses dois são o que a pesquisa chama de “ativamente desengajados”. Perceba, tem mais gente jogando contra (2) do que a favor (1). O DOBRO de pessoas! E o restante não está nem aí.

Como construir resultados de longo prazo, falar de sustentabilidade, produtividade e inovação em ambientes assim? Difícil, não? Todos temos vidas com pouco tempo disponível. Temos que trabalhar, cuidar dos filhos, fazer compras, pagar as contas e cuidar da saúde. Perdemos tempo com trânsito, burocracias e problemas causados por outros problemas. E ainda queremos nos dedicar a trabalho voluntário, desenvolvimento profissional, cursos, hobbies, amigos, família e lazer. De todos os lados sofremos pressão para ocupar nosso tempo com alguma coisa a mais, além de tudo o que já temos que fazer. Nesse cenário, não é de se espantar que o burnout (estado de estafa mental, sentimento de não aguentar mais) seja cada vez mais comum. Principalmente quando no trabalho nos dizem que toda essa luta para equilibrar tudo isso não é suficiente para alcançarmos nossos objetivos. Ou que o herói da empresa é o rapaz (ou a moça) mais “dedicado” porque faz muitas horas extras.

Continuo acreditando que sistemas ruins ganham de pessoas boas. E para mim, esse resultado da pesquisa é consequência desse mundo que criamos, e não uma causa. Importante não inverter essas coisas. As métricas que utilizamos e os controles que exercemos nas empresas, as cobranças e comparações que fazemos são para as pessoas, quando deveriam ser para o trabalho. Isso acontece porque não sabemos gerir trabalho. Quantas horas alguém ficou em um lugar é mais fácil de medir do que quanto resultado ela gerou – ainda mais quando falamos de trabalho intelectual. O sistema empresarial quer controlar as pessoas porque não sabe controlar o trabalho.

Coincidência ou não, comecei a ler um livro que fala exatamente sobre como consertar a gestão para o Século XXI. Uma dupla americana montou em sua época no RH da Best Buy o que elas chamam de ROWE – Results Only Work Environment (em tradução livre seria ambiente de trabalho focado em resultados). Compartilho abaixo os 13 pontos que guiam a construção desse ambiente.

  1. Todas as pessoas, em todos os níveis, devem parar de fazer atividades que desperdiçam seu tempo, o tempo do cliente ou os recursos da empresa;

  2. Empregados tem a liberdade para trabalhar da forma que quiserem. Autonomia existe em todos os níveis;

  3. Todos os dias parecem com sábado. Isso cria a oportunidade de integrar vida profissional e vida pessoal onde o que importa é o resultado;

  4. As pessoas tem folgas ilimitadas desde que o trabalho seja feito. O foco é no resultado, não no tempo que as pessoas dedicaram para alcançá-lo;

  5. Trabalho não é um lugar para onde você vai, é algo que você faz. As pessoas trabalham quando e onde faz sentido;

  6. Chegar no local de trabalho às 2 da tarde não é considerado atraso. Sair do local de trabalho às 2 da tarde não é considerado sair cedo. O foco é no trabalho, não no relógio;

  7. Ninguém fala sobre quantas horas trabalham. Gestores focam em resultados mensuráveis e reconhecem o resultado alcançado pelos empregados;

  8. Toda reunião é opcional. O objetivo é fazer as pessoas refletirem se a reunião é realmente necessária ou se elas realmente precisam estar lá;

  9. Está tudo bem se você decidir ir ao supermercado numa quarta-feira de manhã, ou ir ao cinema na terça a tarde, ou tirar uma soneca na quinta à tarde;

  10. Não há agenda de trabalho. Flexibilidade não precisa ser gerenciada; ela se gerencia sozinha;

  11. Ninguém se sente culpado, que trabalhou além da conta, ou estressado. As pessoas tomam conta dos objetivos da empresa e de seus objetivos pessoais, o que significa que elas se sentem melhor a respeito de todos os aspectos de suas vidas;

  12. Não existe apagar incêndio! Isso promove uma cultura proativa, ao invés de reativa. Incêndios são consequência de planejamento ruim;

  13. Não há julgamento sobre como alguém usa seu tempo. O tempo é uma commodity negociável e não renovável, o que eleva o respeito que temos tanto pelo trabalho quanto pelas pessoas que o executam.

Fonte: Why managing sucks and how to fix it – a results-only guide to taking control of work, not people. Cali Ressler and Jody Thompson (tradução minha).

O destaque que faço do livro é o foco na simplificação. As autoras reforçam o tempo todo que o o objetivo delas é tornar as coisas mais simples para que as pessoas possam trabalhar dedicando-se aos resultados que a empresa precisa – e não preenchendo seu dia com atividades de controle para gerar estatísticas que fazem o gerente parecer mais competente diante dos seus chefes. O que elas propõem é uma mudança no sistema que produz pessoas improdutivas. E isso o faz ser fundamentalmente diferente de outros livros de gestão, que se dedicam a oferecer novos instrumentos para fazer mais do mesmo.

O mundo que construiu a gestão empresarial que conhecemos não existe mais. Está na hora de buscar novos instrumentos que nos ajudem a revisitar as premissas da gestão. Por isso, faço um convite aos meus colegas administradores nesse ano de celebrações: precisamos repensar o nosso papel e começar a construir os próximos 50 anos da nossa profissão – ou arriscamos nos tornar obsoletos no novo mundo. Os 13 pontos (e todo o livro) são uma sugestão de por onde começar.

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