Eu reclamo, você reclama, nós fazemos

Brasileiro gosta mesmo é de reclamar. Prática comum por aqui é tomar um café com o colega de trabalho no final do expediente e falar mal do chefe. É bom, não é? E tem também o happy hour, onde servimos tantas lamentações aos colegas quanto somos servidos de chopps.

E não é só do chefe ou do trabalho que reclamamos. Salário, burocracia, vizinhos, política, governo, corrupção, saúde e educação públicas, novelas, Galvão Bueno, companhias aéreas, filas de bancos (aliás, nada nos une mais que reclamar em fila. É só começar que todos se unem contra banco mal que só coloca dois caixas na agência) e a lista poderia continuar. Insinuar uma possível solução é como colocar lenha na fogueira. Alguém sempre vem com um “já tentei isso! Não funciona não!” e se inflama ao listar todas as situações em que ele ou ela passou por estapafúrdia similar. De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde, terminamos por culpar essa entidade benevolente que aceita todas as culpas sem reclamar chamada sociedade – muitas vezes apelidade de “povo”. “O povo é burro”, “a sociedade aceita tudo calada”, “o povo aceita tudo calado”. Esse tipo de frase me faz lembrar sempre do pelicano Nigel de Procurando Nemo e seus companheiros pelicanos: ficamos todos assistindo, reclamando e não fazemos nada a respeito.

Usando a psicologia positiva de Mihaly Csikszentmihalyi para avaliar esse comportamento, pode-se entender de maneira geral que todos nós nos encontramos no campo de apatia (apathy) no quadro abaixo. O quadro usa duas variáveis para avaliar o estado de motivação das pessoas em relação a uma determinada atividade: habilidade e desafio. Segundo o psicólogo húngaro, o estado de fluxo (flow) é quando a pessoa está realizando uma atividade que ela percebe como desafiadora, porém possível para o seu nível de habilidade. Esse é o estado em que perdemos a noção do tempo de tão engajados naquilo que estamos fazendo.

Flow

Pois bem. Questões de ordem pública como mobilidade urbana, saúde e educação são bastante complexas por envolverem não apenas aspectos técnicos mas também de relacionamento político, jogos de interesses, e outras atividades e conexões que muitas vezes são mantidas por baixo dos panos. Mais do que isso, aprender sobre essas questões é complicado. A linguagem utilizada pelos meios de comunicação exige uma capacidade de entendimento que só se adquire com alguma dedicação ao tema (afinal, o que é, pra que serve, e quando se aplica o tal do embargo infringente?). Assim, nosso domínio sobre essas questões se torna muito limitado, dificultando qualquer habilidade que se queira desenvolver na área.

Além disso, mesmo que seja possível aprender e desenvolver habilidades, sozinhos temos pouca autonomia. A legislação eleitoral brasileira inviabiliza a candidatura a cargo público de forma independente em função da necessidade de altos investimento e forma de apuração dos votos. A mobilização coletiva também é desencorajada diariamente pela mídia ao enaltecer o vandalismo em detrimento da causa. Mesmo que o propósito seja nobre, sem domínio e sem autonomia, fica muito dificil construir a motivação necessária para agir e provocar as mudanças. Principalmente quando se trata a questão assim, de forma abrangente e genérica. 

Acredito que “o povo” não faz nada mesmo. Quem faz é o indivíduo de forma coletiva: eu, você, nossos amigos e parentes – individualmente. “O povo” não vai pra rua fazer protesto, quem vai somos nós: eu, você e os colegas de trabalho que levarmos junto. Reconhecer essa coleção de indivíduos é o primeiro passo para entender também que é a diversidade que nos levará às soluções que tanto desejamos. Por mais que os problemas sejam complexos para uma pessoa só, ao abraçar a coletividade e a diversidade fica mais fácil cada um entender a sua parte nessa construção: advogados conhecem a linguagem e as regras do jogo, sociólogos e antropólogos conhecem as dinâmicas de pessoas e grupos, economistas conhecem parte do sistema, assim como cientistas políticos e sociais.

No meio dessa turma, certamente existem aqueles que estão em quadrantes diferentes do gráfico de Mihaly Csikszentmihalyi – e podem nos ajudar a avançar. Precisamos reunir essa diversidade em espaços coordenados para alcançarmos o estado de fluxo em uníssono, ainda que individualmente, cada um na sua área de atuação. Assim virão as mudanças. Comece a procurar onde você precisa estar para descobrir a ajuda que só você pode oferecer para construirmos um país melhor. Várias pessoas já começaram esse movimento através de ONGs e OSCIPs. Ao participar, vamos descobrir como e quais habilidades poderemos usar e desenvolver, caminhando da apatia para um estado mais próximo do fluxo.

Se vamos parar de reclamar fazendo isso? Não sei responder. Minha esperança é que mudemos a conversa de foco. Sair do “o que” está errado para o “como” fazer para mudar. E o chefe? Sobre isso a gente fala no café…

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