O outro lado da moeda

Este post é uma resposta a esse outro aqui, que fala sobre a Ana.

Lucy

No post original, o autor diz que os jovens profissionais da geração Y (ou Millenials) estão infelizes porque tem uma expectativa muito alta sobre o seu futuro e esquecem de contabilizar a realidade e o que é preciso fazer para alcançar esse futuro. A ideia central do post é que na equação abaixo, o problema está na expectativa.

Quero argumentar o contrário. Por dois motivos: (1) o post original é uma ode à manutenção do status quo; e (2) ser absurdamente discrepante do que dizem décadas de estudos científicos das ciências sociais. Vamos a eles na ordem inversa, começando pelo (2).

Na equação da felicidade, o que cada vez mais fica evidente são os problemas da realidade, não das expectativas. Se é para focar em trabalho, mais uma vez recorro ao novo guru Americano, Daniel Pink. Pink fez uma varredura por décadas de pesquisas nos campos de psicologia positiva, psicologia do comportamento, psicologia social, dentre outros. E o que ele descobriu? A realidade das empresas hoje é completamente desconectada do que nos faz seres humanos.

Sistema falido Pink diz que somos incentivados através de recompensas financeiras a agir de forma anti ética, amoral, e agressiva. Estamos diariamente comprometendo não apenas nossa produtividade, mas também as relações e a motivação das pessoas através de práticas de recompensa e punição. Práticas essas construídas exatamente pelas gerações anteriores tão bem sucedidas. Que aliás, de tão bem sucedidas financeiramente, não tiveram tempo para os filhos, arruinaram o meio ambiente e estabeleceram a falência do modelo econômico que vivemos hoje. Com tantos incentivos financeiros, não é de se surpreender que o planeta vá tão mal.

A geração Y, no meio disso tudo, cresceu acreditando e descobrindo através da internet, que outras realidades são possíveis. Não no sentido virtual ou das teorias físicas de realidades paralelas. A geração Y viu exemplos de pessoas se tornarem bem sucedidas fazendo o que gostam, abrindo caminhos e perseguindo sonhos, coisas que as gerações anteriores não buscaram profissionalmente. Assistir a tantos casos de jovens milionários, com equilibrio entre vida pessoal e profissional e fazendo o que gostam deve ser realmente muito frustrante para a geração X.

A desconexão entre a realidade criada pelas gerações anteriores e àquela encontrada pela geração Y através da internet é que gera a expectativa de que “se eles conseguiram, eu também consigo”. Consequentemente, logo vem o pensamento “por que eu preciso me matar durante décadas fazendo uma coisa que não gosto, para pessoas que não se importam?”. A infelicidade da geração Y não está na construção de expectativas, e sim na pobre realidade que está aí disposta, mesmo diante de tantas evidências da falência do modelo.

E aí sim vem o motivo (1). O post original se dispõe a fazer com que os jovens diminuam suas expectativas, seus ímpetos e submetam seus desejos de transformar a realidade que vivem para se enquadrar no modelo falido que as gerações anteriores construíram. É como dar ritalina para uma criança de 6 anos que não pára quieta dentro da sala de aula chata e metódica e que não estimula a curiosidade. Tratamos as vítimas como se fossem culpadas.

A infelicidade dos Millenials está então na frustração causada pela desconexão entre a realidade em que eles acreditam – e viram ser possível no youtube -, e a realidade em que eles são forçados a se enquadrar pela pressão da sociedade. A ilusão citada no post original é muito mais o sonho de um mundo ideal, que um devaneio doentio.

No entanto, existe um ponto a ser destacado. Ao confrontar a realidade, é preciso canalizar a confiança e o poder transformador que esses jovens tem para construir o mundo ideal em que eles acreditam. Em que nós acreditamos. É preciso agir nessa direção e não esperar que as coisas magicamente aconteçam para nos levar a esse mundo ideal.

Assim, os meus conselhos para a Ana são:

1) Continue sim ferozmente ambiciosa. O mundo está sim borbulhando de oportunidades mas é preciso que você faça alguma coisa para descobrir qual vai te trazer realização. Experimente muito e diversamente em diversas empresas e setores. Só experimentando você vai descobrir algo em que deseja ser realmente boa.

2) Continue pensando que você é especial. Mas faça isso em virtude da sua combinação única de personalidade, interesses e habilidades, e não por achar que é melhor que outras pessoas. Provavelmente só você será capaz de mudar o mundo da forma que você idealiza. Humildade vai te ajudar a conquistar aliados e a mover pessoas na direção da mudança que você quer proporcionar.

3) Celebre o sucesso das outras pessoas. Existe um motivo para o Vale do Silício ser o Vale do Silício. É porque estar próximo de pessoas bem sucedidas e que você admira vai te ajudar a desenvolver as habilidades necessárias para alcançar o sucesso. Aceite que ele vem em momentos diferentes nas nossas vidas e celebre as conquistas expostas pelos amigos nas redes sociais. Ofereça-se para fazer parte do sucesso deles e aprender.

E aí Ana, você assume a responsabilidade de transformar o mundo para melhor. E equilibrar a equação da felicidade.

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4 Respostas to “O outro lado da moeda”

  1. Carolina Says:

    Bom texto! Coerente com a visão da geração Y.

  2. Frederico Figueiredo Says:

    Eu concordo com o que você diz, mas vejo que mudar a realidade é um fardo muito difícil de se fazer. Somente pessoas o mudarão, mas deve-se pensar que ainda existem barreiras e comandos que não deixam que o exercício da mudança seja aplicado a realidade das empresas. Eu achei corajosa a sua atitude de responder ao outro post, mas acredito que os dois estão certos. Existe, sim, uma decepção por não conseguir mudar o mundo que é muito clara em nossa geração Y, mas não acho que devemos parar de tentar… quem sabe com trocentos anos de trabalho duro possamos aplicar o que você diz neste post e realmente mudar. Esses anos são necessários para os Dinossauros caírem das cadeiras maiores e a mudança ocorrer.

    • Marcelo Says:

      Primeiramente obrigado pela visita e pelo comentário com tanto elogios. Fico realmente muito agradecido. 🙂

      O que vejo ser necessário é fazermos uma coisa chamada assunção: assumir a nossa responsabilidade enquanto geração e mudar o que está aí. Como? Através do trabalho como você colocou. “Sua carreira é a melhor chance que você tem de mudar o mundo de uma forma que é importante para você”. O que é possível fazer hoje? Que atitude corajosa você precisa adotar pra provocar essa mudança?

  3. Naone Garcia Says:

    Fala Marcelo!

    Muito bacana seus comentários sobre a matéria, achei eles bem pertinentes.

    Confesso que quando eu vi o título da matéria original eu demorei muito pra ler ela porque tava com muita cara de ser uma matéria mimimi…e quando eu realmente tomei coragem pra ler, eu vi que realmente era um pouco! kkkkkkk

    Mas não deixar de ser interessante. O cara tocou em pontos fundamentais da ger Y que eu também concordo, e por isso quis usar alguns desses pontos na última palestra que eu dei e tive o prazer de ter você na plateia.

    Entre os pontos chave da matéria do cara, gostei muito de duas questões. O fato como ele aborda que as coisas não vão vir facilmente (trabalho antes do sucesso) e que as pessoas deveriam se comparar menos.

    A questão é que não tenho certeza se esses dois pontos (principalmente o segundo) são exclusividades dessa geração, e ao abordar esses tópicos como se fossem, talvez o autor tenha destacado os pontos negativos sem destacar os positivos, como nossa capacidade de sonhar com um mundo melhor e ser ambicioso.

    Resumindo, seus três conselhos para a Ana foram excelentes, mas mesmo assim que quis dar uma pitadinha em cada um:
    1) Continue sim ferozmente ambiciosa…mas faça por merecer! Você só vai alcançar seus sonhos se ralar muito (e talvez por um bom tempo!). Na dúvida sobre que caminhos de seguir, além de tentar muito, conversar com pessoas de diferentes áreas também é um ótimo caminho.

    2) Continue pensando que você é especial…e seja especial ao seu ver! Somente você pode definir o SEU conceito de sucesso, mas procure sempre pessoas que compartilhem pelo menos algo próximo do seu ideal e se agarre nelas…ajudando-as e sendo ajudada por elas.

    3) Celebre o sucesso das outras pessoas… de forma sincera e sem se comparar a elas! Cada pessoa tem uma realidade totalmente diferente, quando nos comparamos geralmente não temos nada a nos agregar. Isso não quer dizer que não devamos ter ídolos, heróis, ou pessoas para nos inspirar. Mas a linha entre a inveja e a admiração bem tênue! Fique de olho Ana!

    Por último, um dos vídeos que fizeram em resposta a matéria original foi esse aqui. Acho que você vai gostar:
    http://www.upworthy.com/the-best-response-for-when-anyone-calls-young-people-lazy-today?c=ufb1

    Grande abraço!
    Naone Garcia


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